São Roque Gonzales, Santo Afonso Rodrigues e São João de Castilho, os Santos Mártires das Missões (noroeste do Rio Grande do Sul), foram canonizados em 1988 pelo Papa João Paulo II. São os primeiros evangelizadores das terras gaúchas e aí foram martirizados. Venerados, justamente, pela Igreja do Rio Grande, são, portanto, os primeiros santos do Brasil (ver ELENCO GERAL).
Somos co-herdeiros da região missioneira
Assim, antes de mais nada, devemos reafirmar a verdade histórica de que o Brasil é um dos países que compõem atualmente a antiga região missioneira. Hoje essa região desmembrada politicamente não faz mais parte da Espanha, mas de 4 países sul-americanos. Falar da região missioneira é falar de algo que nos cabe naturalmente, pois somos co-herdeiros desse legado histórico-cultural.
E a língua não é considerada um empecilho. A região missioneira politicamente pertencia aos colonizadores espanhóis, e por isso muitos tendiam a achar que essa região, por ser então de língua espanhola, não nos interessava. Também o Uruguai foi iniciado por outra língua daquela lá falada hoje, já que sua primeira povoação foi realizada por colonos portugueses, na Colônia do Sacramento, sudoeste do país. Quanto à região missioneira, lembremos que o espanhol não era a única língua ali falada: sem dúvida, a língua mais comum, e mais importante, era o tupi, igualmente falado no Brasil. Essa era a língua usada pelos missionários obviamente. Até o ano de 1700, cerca de 75% dos habitantes do Brasil-colônia falavam tupi. Até hoje as comunidades indígenas da região missioneira falam tupi.
Considerar os legítimos primeiros habitantes da terra
O legado histórico-cultural das missões não se restringe aos muitos monumentos e ruínas dos Sete Povos das Missões que encontramos nos roteiros turísticos do Rio Grande do Sul. Devemos olhar para os nossos fiéis.
Pensemos nos habitantes da região na época dos mártires. Eram os índios guaranis, que estavam sendo catequizados nas reduções pelos nossos santos. Falavam o tupi guarani, como vimos. Esses cristãos continuaram habitando a região, eles e seus descendentes, independente do jogo de dominação imposto à força sobre o lugar. Considerado território espanhol, depois português, e, enfim, Brasil independente, não importa, os habitantes eram os mesmos, na mesma terra, apesar das décadas de absurda violência que a região conheceu com o tempo. Mais de 100 anos após os nossos mártires, as guerras guaraníticas não conseguiram dizimar todos os índios que habitavam a região, nem expulsá-los, como era o desejo de portugueses e espanhóis.
Com o tempo, outros habitantes (como os imigrantes europeus) vieram fazer parte dessa grande família, mas sua descendência permaneceu na terra. Miscigenados e dispersos na população ou não, seus descendentes estão ligados à região, e hoje são chamados de brasileiros. Os santos que viveram entre eles, transmitiram a fé cristã aos seus antepassados e são por eles venerados, não são seus santos? Hoje essa região faz parte do Brasil e seus habitantes são brasileiros. Os títulos de pertença ou dominação política podem ter mudado, mas houve uma continuidade: o povo cristão é o mesmo. Roque Gonzales e seus companheiros eram santos desse povo e continuam sendo. Esse povo é brasileiro: eles são santos do Brasil.
Se eles não fossem santos dessa região, de qual região seriam então? Como explicar a devoção aos santos mártires no solo do Rio Grande? Se disséssemos que essa região não fazia parte do Brasil na época, e por isso, o que lá aconteceu não pode ser atribuído ao Brasil atual, seria o mesmo que dizer que os habitantes seculares dessa terra não são brasileiros, o que é um absurdo. Inconscientemente estaríamos dizendo que os índios e seus descendentes que habitam essa região do nosso país não são legítimos brasileiros. Estaríamos perpetuando a mesma mentalidade que provocou as guerras guaraníticas, considerando a posse (arbitrária) da terra como critério, sem levar em conta o povo que nela habita. Estaríamos tentando novamente expulsar desta terra seu povo e sua cultura. Desconsiderar os Santos Mártires das Missões é desconsiderar o povo que os venera.
Mártires rio-grandenses
Historicamente, além dos títulos de “Mártires do Paraguai”, “Mártires Platenses” e “Santos das Missões” a que nos referimos acima, um outro título é tremendamente significativo para o que estamos falando: o título de “Mártires Rio-grandenses”. O povo gaúcho conhece de perto a realidade que acabamos de expor, e para ele, os santos mártires das missões são santos rio-grandenses sem dúvida alguma, são gaúchos. Esse é o sentir da Igreja gaúcha. É evidente que nenhum outro estado ou região do Brasil pode questionar esse sentimento, ou criar outra argumentação histórica que os desvincule do Rio Grande do Sul, e, por conseguinte, do nosso país. Ninguém precisa ensinar os gaúchos a serem gaúchos.
Em primeiro lugar está a questão do lugar da morte: eles derramaram seu sangue em terras do Rio Grande do Sul, região onde viviam já há dois anos. É um fato histórico incontestável. Isso de per si já bastaria para associa-los definitivamente a essas terras, pois são os santos patronos dessas terras, e seus primeiros evangelizadores. Preenchem ao menos um dos três requisitos que mencionamos no início do capítulo, e por conseguinte, podiam ser beatos dessas terras.
Em segundo lugar, reafirmando esse fato do local da morte temos a sua veneração nessas mesmas terras. Lembremos o que significa a fama de santidade para as questões que envolvem uma causa de canonização, e veremos que isso que acabamos de afirmar é da maior importância. O fato de serem venerados como mártires do Rio Grande do Sul pelo povo gaúcho é um argumento fundamental para reivindicarmos a sua pertença aos santos do Brasil. A veneração aos mártires não se interrompeu com as mudanças políticas ocorridas na região, por exemplo, passando de colônia espanhola à colônia portuguesa, ou qualquer outra consideração dessa natureza. Ao contrário, se os ignorássemos como ‘santos do Brasil’ e os chamássemos simplesmente de ‘santos do Paraguai’, estaríamos invertendo a verdade histórica da sua causa de canonização. Eles sempre foram considerados santos genuinamente gaúchos, brasileiros. Essa devoção não foi ‘importada’ do Paraguai. Quanto ao movimento inverso, erraríamos se afirmássemos que os países vizinhos ‘importaram’ essa devoção do Brasil, pois nossos mártires já faziam parte da história das reduções, e, por conseguinte, da história desses países; mas, sem dúvida, foi graças à Igreja do Brasil que a devoção aos mártires cresceu substancialmente entre os nossos vizinhos, devido à beatificação conseguida em 1934.
O título de ‘Mártires Rio-grandenses’ é o que mais corresponde à fama de santidade desses nossos santos, e perdura até hoje. Os três mártires sempre foram mais venerados no sul do Brasil, no Rio Grande do Sul, do que nos países vizinhos (Argentina, Paraguai e Uruguai), e isso de forma decisiva. Nem mesmo argentinos, paraguaios e uruguaios questionam esse fato. Falando sobre várias graças extraordinárias atribuídas aos santos mártires nas décadas de 1920 e 1930, nos países da região, assim se refere Pe. Luiz Gonzaga Jaeger,sj:
“No Rio-Grande-do-Sul, porém, é que as graças tem chovido mais copiosamente, seja pela maior devoção do povo a ‘seus’ santos, seja pela predileção dos beatos por esta terra, que enobreceram com seus trabalhos e santificaram com seu sangue”.
Não fosse essa fama de santidade em solo gaúcho, provavelmente nunca teriam sido sequer beatificados, como ainda não foram outros mártires da região missioneira (ao menos cerca de 23 missionários!). Devemos lembrar e frisar bem isso: nos países vizinhos não havia essa devoção popular aos mártires como havia aqui.
Venerados como nossos santos
Seguindo essa veneração popular aos Santos Mártires, enquanto fama de santidade em solo gaúcho, deu-se a abertura e prosseguimento do processo até a beatificação. Pelo critério da fama de santidade, religiosos e bispos gaúchos levaram em frente a causa, ou seja: os mártires aqui viveram, aqui morreram, aqui eram venerados e aqui foi encaminhado o processo. Na época, a diocese gaúcha que abarcava as terras onde ocorreu o martírio era a diocese de Uruguaiana, e aí foi sediado o processo canônico. Obtida a Beatificação, essa foi celebrada pelo Papa Pio XI, em Roma, em 1934. Os Beatos Mártires passaram a fazer parte do calendário litúrgico do Brasil. Desde então cresceu ainda mais a devoção a esses nossos santos, e a relíquia de São Roque percorreu inúmeras dioceses do sul, com grande veneração dos fiéis.
Quanto ao país onde é sediado o processo, mesmo que ele tivesse sido iniciado em outro país, não alteraria em nada a questão; mas fica evidente que não foi à toa que o mesmo foi encaminhado pelo Brasil.
Mais recentemente, em 1978, quando se tratou de levar adiante o processo para a canonização dos três beatos, as Igrejas dos quatro países herdeiros da região missioneira abraçaram em conjunto a causa (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai). Em sinal de unidade, e por serem importantes para toda a região, concordaram em dar a eles o único título de “Mártires das Missões”, livre de conotações políticas ou nacionalistas. Isso quer dizer: não seriam considerados apenas do Brasil, o que poderia acontecer sob determinado ponto de vista. As Igrejas do Paraguai, da Argentina e do Uruguai reconhecem a preeminência do Brasil na questão, psicologicamente evidenciada ainda mais pelo fato de o processo ter sido conduzido aqui. Mas a Igreja do Brasil, na pessoa de Dom Estanislau Kreutz, então bispo de Santo Ângelo, sempre considerou nossos mártires como na realidade são, patrimônio comum a toda a Igreja presente na região Missioneira e um sinal de comunhão.
Outro detalhe, não decisivo para esse ponto de vista, mas significativo: o que faltava para a canonização, um milagre aprovado, foi apresentado também justamente pelo Brasil, isto é, pela diocese de Santo Ângelo, a mesma diocese brasileira onde os mártires derramaram seu sangue, e uma das maiores promotoras da causa. Sinal do grande número de graças alcançadas pelo povo gaúcho. Trata-se da comprovação da cura milagrosa de Maria Catarina Stein, ocorrida em 1940.
O título de Protomártires do Brasil
Se são do Brasil, e foram beatificados em 1934, são nossos protomártires beatificados. Esse título se refere ao fato de serem os primeiros mártires oficialmente reconhecidos pela Igreja no Brasil, ou seja, aqueles cuja causa já recebeu o Decreto sobre o Martírio e são assim contemplados com a beatificação. Porém, os Mártires do Rio Grande do Norte (C.6) receberam esse título em 5 de março de 2000, data em que foram beatificados. Quem dá esse título é o Papa, conforme o que lhe é apresentado pela Congregação para as Causas dos Santos; essa por sua vez decide segundo o que é apresentado pelo Brasil, ou seja, por quem encaminhou os estudos a respeito.
Ter dado esse título a outros santos, significava esquecer que os Santos do Rio Grande do Sul são do Brasil. Não se trata de disputar um título, pois isso para Deus não tem importância. Dom Estanislau Kreutz enviou nessa ocasião um pedido de retificação à Congregação para as Causas dos Santos, mas até agora o pedido não foi atendido.
Alguns chegaram a dizer que a região do Rio Grande do Sul na época do martírio pertencia à coroa espanhola; mas o mesmo argumento serve para a região do martírio do Rio Grande do Norte: em 1645 essa região estava sob domínio holandês, e foram os calvinistas holandeses a martirizarem os nossos beatos.
Poderia se argumentar também que os do Sul não são nascidos no Brasil, e os do Norte são quase todos nascidos no país (27 de um total de 30 beatos; o número real de martirizados, porém, chega a 150!). Mas esse argumento está fora de lugar: não é a nacionalidade de origem que está em questão, mas o local onde morreram. Todos os 3 do sul e os 30 do norte estavam em regiões que hoje pertencem ao Brasil. E também não estavam aqui simplesmente de passagem, o que já seria suficiente, mas todos também viviam nessas regiões. Além do mais, a possível causa de Cacique Adauto relativisa ainda mais esse argumento, pois havia um brasileiro também entre os do sul.
Padroeiros da terra
Quanto a essa questão de pertença a outro país na época do martírio, é interessante lembrar que Santa Paulina (C.4) é considerada santa italiana pelos italianos, mas na época do seu nascimento a região estava sob domínio austríaco. É verdade que a sua cidade era de uma região de dialeto italiano, mas localidades muito próximas a Trento são de dialetos alemães, e hoje pertencem a nação italiana; o Trentino faz parte da Itália mas tem um estatuto político diferente do resto do país. As considerações de lugar não podem ser usadas de forma rígida. Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein), se orgulhava de ser alemã, nascida em Breslaw, região alemã que hoje pertence à Polônia (atualmente Wroclav). Na Europa, com suas fronteiras movediças ao longo dos séculos, é simplesmente impraticável usar esse argumento de examinar a qual país pertencia o santo na época em que viveu.
Como vimos, os santos sempre estiveram vinculados à terra em que viveram. O título de pertença política não é mais forte que essa tradição tão natural. Nossos mártires Roque, Afonso e João sempre foram venerados nessas terras como seus primeiros evangelizadores. A Igreja justamente ensina a venerar de forma especial aqueles que por primeiro pregaram o Evangelho em determinada região, pois são seus primeiros padroeiros. Se a Igreja do Rio Grande do Sul não os venerasse, estaria ferindo esse conceito elementar. Mas isso nunca aconteceu.
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