Um projeto há tanto tempo esperado pela equipe do site SantosdoBrasil.org: a apresentação do livro “Santos do Brasil – canonização e biografias de mulheres e homens que viveram em terras brasileiras” a ser publicado num futuro próximo.
Por sua relevância e significado cultural o livro foi escolhido para ser entregue ao Papa Bento XVI na visita oficial que o Pontífice fez ao Presidente Lula no Palácio dos Bandeirantes, dia 10 de maio. Os santos são o maior símbolo da força de fé de um povo; são santos de todas as partes do Brasil, da época do descobrimento aos nossos dias, e por isso um símbolo do povo brasileiro.
Fruto de mais de 4 anos de pesquisas, é um conjunto bem estruturado de biografias de mulheres e homens que viveram em nossas terras, falecidos com fama de santidade. È a primeira vez que este tema é apresentado de forma sistemática em nosso país.
O texto tem a aprovação eclesiástica (‘imprimatur’) de Dom Antônio Celso Queirós, bispo de Catanduva e, até o início de maio, vice-presidente da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil). A revisão ('nihil obstat') ficou a cargo de Pe. Antônio Silva, CSSR, professor das faculdades de teologia ITESP e PIO XI, de São Paulo.

Note-se que foi entregue ao Papa a edição PRO MANUSCRITO, pois a 1a. edição ainda está em preparação e deverá ser publicada até junho. Essas cópias estão sendo gentilmente doadas pelo Mosteiro de São Bento de São Paulo (foto: Ricardo Stuckert / PR).
Mesmo as pessoas que trabalham com as várias causas de canonização pelo Brasil desconhecem seus colegas, e não imaginam que existam tantas causas no país. A falta de conhecimento sobre isso é generalizada. E é fácil demonstrar acessando sites que falam sobre o assunto.
Porém, o livro não se limita às causas em curso, mas a biografias históricas dos primeiros séculos, todas elas marcadas pelo critério da fama de santidade. Trata-se uma pesquisa histórica séria, ancorada em fontes fidedignas.
O livro tem as biografias
Ø das 60 causas de canonização do Brasil atualmente,
Ø de 30 causas que podem ser iniciadas, e
Ø de outras 61 causas dos primeiros séculos da colônia ou mais recentes onde existe a fama de santo em torno a pessoa mas não contam com um projeto para introdução da causa no momento.
Seu lançamento coincide com a visita do Papa Bento XVI ao Brasil, onde vai realizar a canonização de Frei Galvão. Soma-se a este evento as recentes cerimônias envolvendo vários biografados da publicação: as beatificações ocorridas em 2006, no Brasil, Beato Pe. Eustáquio van Lieshout (Belo Horizonte, MG) e Beato Mariano De La Mata Aparício (São Paulo, SP); as beatificações previstas para 2007: Venerável Albertina Berkenbrock (outubro de 2007, em Tubarão, SC), Veneráveis Manuel Gomes Gonzáles e Adílio Daronch (outubro de 2007, em Frederico Westphalen, RS) e Venerável Lindalva Justo de Oliveira (novembro de 2007, em Salvador, BA). Espera-se ainda para 2007 o anúncio das beatificações das Servas de Deus Nhá Chica e Irmã Dulce. Todas as cerimônias concorrem para a divulgação constante na mídia, fazendo crescer o interesse pelo tema.
Como o livro surgiu
O livro nasceu de uma graça obtida por intercessão de Frei Galvão. Conhecendo melhor sua biografia e sua causa de canonização, a escritora Eva Luzia escreveu um pequeno livro sobre sua vida e novena: “Novena das Pílulas do Beato Frei Galvão” (2003). Trata-se de uma catequese sobre a oração, enquanto se conta de forma simples a vida do primeiro santo nascido no Brasil. Conversando com pessoas ligadas a Frei Galvão, a equipe do site ouviu falar de outras pessoas santas como Pe. Victor, de Três Pontas, e de Nhá Chica, de Baependi, ambos de Minas Gerais. Pe. Victor é o “Anjo Tutelar” de Três Pontas, cidade natal da mãe de um de um deles, dona Carmela Pascarelli de Gouveia. A curiosidade sobre o assunto os fez descobrir outras causas de canonização entre antigos personagens, que sabiam remotamente serem venerados pelo povo brasileiro, como Pe. Donizeti, Madre Teodora Voiron, Pe. Rodolfo Komorek, mas não podiam imaginar serem alvo de uma causa de canonização. A surpresa transformou-se em indignação: “Como é que nós nunca tínhamos ouvido falar dessas coisas antes?” Imaginaram que, da mesma forma como nunca tinham ouvido falar de Madre Paulina antes da sua beatificação, em 1991, em breve saberiam da existência de outros futuros beatos brasileiros que sequer sabiam que existiam... Não querendo esperar que essas notícias chegassem até eles com o passar dos anos, começaram a procurar informações a respeito. Logo viram que não existiam levantamentos a respeito, e seria necessário realizar uma breve pesquisa. Mesmo as pessoas mais bem informadas sobre a questão, os próprios postuladores das causas de canonização, não conheciam todas as causas existentes. Nascia, assim, um projeto, iniciado em outubro de 2003 com o site Santos do Brasil, e que só pode ser concretizado agora, em 2007. Dona Carmela colaborou com as redações das biografias, mas veio a falecer em 2004, e agora acompanha o trabalho entre os santos no céu.
Uma realidade desconhecida
No início, contando os santos já “beatificados” que os autores conheciam, e mais aquelas pessoas das quais tinham ouvido falar remotamente, fizeram um elenco de umas 15 pessoas ao todo. Esse elenco já parecia imenso, mas a pesquisa que foi iniciada no domingo de carnaval de 2003 ‘por mares nunca dantes navegados’ elevou esse número a 60 causas de canonização! E não está excluída a possibilidade de que seja um número incompleto. Novos processos continuam se instalando pelo Brasil afora. Mas as surpresas não se limitaram ao número de causas de canonização em curso. Para seu espanto, até santos canonizados eram desconhecidos e ignorados! Incrível também a falta de conhecimento sobre o assunto por parte das próprias pessoas ligadas à uma causa de canonização: os próprios postuladores desconhecem uns aos outros, e não imaginam que a Igreja no Brasil tenha tantas causas de canonização.
Quem pode ser considerado santo do Brasil?
Aqui se impõe um esclarecimento importante: o que entendemos por Santos do Brasil. São aquelas santas e santos que a Igreja reconhece como ligados de forma especial à nossa terra, ou seja, são as pessoas santas que nasceram, viveram ou morreram no Brasil. Aqui viveram e mostraram sua santidade e por esse motivo seu culto regional pode ser permitido em nosso país. O culto regional de um santo inicia com a beatificação. Por antiga tradição da Igreja em todo o mundo, somente podem ser venerados como beatos de determinada região os santos que cumprem um desses 3 requisitos mencionados. Os santos dessa região são incritos no seu calendário litúrgico e aí venerados de forma especial. São como os padroeiros e patronos da terra. Assim, esse livro é dedicado àquelas pessoas santas que poderiam ser reconhecidas regionalmente no Brasil, e que podem ser inscritos no calendário litúrgico oficial da Igreja Católica em nosso país.
Uma mudança de mentalidade
O número pesquisado impressiona: é uma verdadeira multidão! De onde saiu tanta gente?! O que explica esse fenômeno?
Sem dúvida, nós estávamos acostumados com a nossa mentalidade de colônia, onde tudo o que era bom vinha da Europa. Também nossos queridos santos eram todos europeus. Agora vemos que temos santos no Brasil, santos como os santos europeus, que há tanto conhecemos e admiramos. Essa é a conclusão a que chegaram após esses anos de pesquisa e, sobretudo, anos de oração junto aos nossos santos.
Os santos sempre fizeram parte do dia-a-dia do nosso país, mas não havia o costume de considerá-los assim, nem a prática para lidar com essa questão.
Por razões históricas e culturais, apenas as causas de canonização de um número muito restrito de santos conseguiam ser bem sucedidas, e apenas de alguns poucos países.
Assim, uma das funções deste livro é reparar uma grande injustiça: pensar que o Brasil não tem santos, santos de altar, ou, esclarecendo melhor, santos que podem um dia ser canonizados.
Essa injustiça um dos autores cometeu no passado...Há muitos e muitos anos atrás tinha conhecido o Mosteiro da Luz em São Paulo e assim tomado conhecimento, mesmo que despretensiosamente, da figura de Santo Antônio Galvão. O mesmo pode ser dito com relação ao Venerável Pe. Rodolfo Komorek, salesiano falecido em São José dos Campos. Nesse tempo falaram de seus respectivos processos de canonização, fama de santidade, etc. Não foi dada importância a eles. Internamente pensava: “Imagine, nunca chegarão a ser santos de altar! Pobrezinhos, é muita pretensão...” – Santo de casa não faz milagre! – E ao mesmo tempo admirava-se de o Brasil não ter santos. Pensava: “Porque o Brasil é diferente dos outros países católicos? Será que o Brasil não tem santidade?” Seria esse o problema, não ter a santidade que faz das pessoas santas? Mas a pergunta correta seria: “Será que o Brasil tem santidade mas não canonizações?”
Essa mentalidade de colônia, subjacente ao modo de encarar a questão, já produziu duas vítimas famosas no Brasil: Pe. Cícero Romão Batista e Maria Araújo, a beata do milagre da hóstia de Juazeiro. A cidade pertencia à diocese de Fortaleza naquela época, e seu bispo, D. Joaquim José Vieira, deliberadamente não queria considerar a possibilidade de estar ocorrendo um milagre, aceitando a idéia do preconceituoso sacerdote francês Pe. Chevalier, que disse: “Jesus Cristo não deixaria a França para vir operar milagres no Brasil”!
Outras considerações sobre o livro
É importante frisar que o interesse por essa publicação não se limita ao âmbito religioso católico, mas interessa ao país como um todo. O tema não contradiz o conceito de um Estado laico, onde se respeita o princípio de verdadeira liberdade religiosa e, portanto, respeito à todas as confissões e credos, sem privilégios nem discriminações, pois a liberdade religiosa é elemento essencial dos direitos do homem. A importância histórica-cultural das pessoas biografadas no projeto para a nação brasileira ultrapassa o mero âmbito confessional. Embora o percentual de católicos entre os brasileiros atualmente possa ser situado em cerca de 70% ou mais, a divulgação de suas vidas não se restringe ao interesse religioso católico: essas personalidades foram e são relevantes para a formação da nação como um todo. Podemos demonstra-lo facilmente, citando elementos tipicamente confessionais e aferindo a sua importância para a vida da sociedade de forma geral. Para a Igreja Católica, por exemplo, o maior distintivo de seus “santos” é a prática da caridade, para com Deus e o próximo. Isto se traduz, na sociedade laica, a uma vida pautada sobre ideais nobres e altruístas, a observância das leis e bons costumes, a dedicação total e irrestrita de si mesmo a todos os membros da sociedade, procurando a promoção integral do ser humano. A prática desses ideais é uma constante entre os assim chamados “santos”, e tal conceito, na verdade universal, é de fácil compreensão não só a todas as confissões e credos religiosos, bem como aos cidadãos que não professam religião alguma, porque conceito profundamente humano. Excetuando uma leitura anacrônica dos fatos históricos, os constitutivos especificamente confessionais não são considerados impedimento à aceitação desses valores por toda a sociedade. Os estudos dessas biografias tem assim seu lugar muito além das meras restrições religiosas, mas nos mais variados campos do saber, como a história, a sociologia, a antropologia, a política, etc. São importantes como seriam importantes estudos semelhantes por parte de outras religiões presentes no Brasil, ou estudos sobre outros grupos de interesse histórico-sociológico.
O trabalho não se restringe às causas de canonização em curso, mas procura realizar um resgate histórico de inúmeras biografias importantes na matéria. São contemplados dezenas de exemplos dos primeiros séculos, mas não só, também exemplos mais recentes. Estamos diante de grandes exemplos de cidadania, fundamentais para a Pátria brasileira, desde os desbravadores das ordens religiosas franciscana, jesuíta, carmelita, dos inícios da colônia, até as últimas décadas de nossa história. De Pe. Anchieta a Dom Hélder Câmara ou Dom Luciano Mendes de Almeida, todos eles serviram ao povo brasileiro com genialidade e heroísmo, de tal forma que não poderíamos exclui-los sem mutilar irremediavelmente a compreensão que hoje o Brasil tem de si. A Igreja historicamente foi essencial para a educação e a formação cultural do povo brasileiro, e suas atividades imprescindíveis também no campo social-caritativo, com o cuidado da saúde, da proteção dos órfãos e desvalidos, idosos, etc. Essas características, antes praticamente exclusivas do religiosos dos primeiros séculos, hoje é amplamente compartilhada por todos os segmentos da sociedade; porém, continua como um dos focos principais de atuação da Igreja Católica, que entende ser o serviço fraterno e solidário a todos os homens um componente essencial de sua existência. Os biografados, homens e mulheres simples ou de grande cultura, foram agentes sociais e lideranças importantes, elementos de coesão e desenvolvimento social. Foram verdadeiros mestres de humanidades e promotores dos valores cívicos. Têm seu lugar garantido em nossos centros de pesquisa e reflexão contemporânea. Ao mesmo tempo, existe uma necessidade natural de sistematizar esses estudos biográficos, sob o risco de se perder historicamente a sua memória. Característica fundamental da obra é a pesquisa séria das fontes bibliográficas e a sua oportuna indicação, dando subsídios para o aprofundamento do tema por parte dos leitores.
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